Menina pássaro ou o voo da mulher bicho
- jupautilla
- 25 de jul.
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Uma criança, pássaros, cervos, vaca, paisagens, animais humanos, humanos animais. Mulher cervo, vaca louca. Seres imersos em paisagens vivas (mares, florestas) ou mortas, como um deserto de queimadas. Uma vaca sobrevive ao deserto. Uma mulher-cabeça de cervo segura o fogo do saber, pois é ela que conhece os segredos daquela floresta. A criança é cuidada pelo mar, pelos peixes, pelos pássaros. Todo esse universo onírico, remetendo ao imaginário potente da infância, tão explorado nos desenhos e filmes de animação, ganham uma carga mais densa nas pinturas de Marina Zardo[1]. Ainda que haja na proposição da exposição um caminho narrativo é para nos lembrar de podemos contar outras histórias.
Na busca pela representação de um corpo feminino fora do padrão e da normatização que o corpo da mulher é colocado na nossa sociedade, a viagem de Marina nos leva a uma fabulação: e se aprendêssemos a ser mulher de outro modo? Tomar consciência pelas águas, pelo mar e pelos peixes. Encontrar conforto em um ninho de garças inventadas. Voar, através da morte das certezas. Os xingamentos dados às mulheres - louca (sem racionalidade), vaca, piranha - talvez estejam nos apontando ao lugar do qual não devíamos ter saído: às forças pulsionais e instintuais, sem nos preocupar tanto com a civilização racionalizada e fria, que mata e explora. Retorno à natureza, aliança.
A proposta imersiva da exposição, remete a um mergulho necessário, como se Marina desse as mãos a cada um e convidasse: vamos juntes? Na primeira sala as telas apresentam uma menina e seu encontro com o mar e seus habitantes, do profundo e da superfície. Voar a nadar, ao invés de andar. É preciso aprender outras técnicas, outros movimentos. É ali que a menina-marina gostaria de ter aprendido sua existência, que retiraram dela e de todas nós, de conviver em sinergia aos mundos não-humanos. Na segunda sala, aparecem os animais com gestos de gente ou vice-versa, espécie de guias totêmicos de um mundo em eterna construção-destruição. Nos avisam de algo? Guardiãs daquilo que esquecemos? São nossos sonhos para sair do sono paralisante? Caminhar por essa narrativa onírica remetendo à integração da infância ao mundo natural, parece apontar para uma mensagem didática aos modos de Brecht – “Que tempos são estes, em que temos que defender o óbvio?”. Um portal possível, uma retomada importante, quando as questões ambientais deixaram de ser um lembrete de agenda, e se tornaram a crise climática que vivemos. Nos contos de fada ou nas narrativas bíblicas, por exemplo, os elementos humanos se fundem ao animal, mas em geral com intuitos moralizantes, ou psicologizantes – como a formação do self, produção do si mesmo através de aventuras com seres de outros mundos, lições sobre obediência, perdão, aceitação. Não é esse o caminho apontado pela artista. As pinturas de Marina produzem fusão, confusão, rompendo o binômio natureza-cultura, mundo interior-mundo exterior. Que remete ao múltiplo, às variações, aos modelos fixados, o humano universal que a tudo subordina – a mulher da costela de adão, o animal que é domesticado, a natureza explorada, a criança sem racionalidade, etc.
Para o filósofo e antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, na sua formulação sobre o perspectivismo ameríndio, a humanidade é uma condição partilhada por todos os seres, cada espécie é dotada de uma consciência (plantas, animais, rios, mares). Todas as espécies, do ponto de vista da existência, partilham um humano, um vivo, rompendo com a metafísica humanista, sugerindo uma redefinição das categorias clássicas de natureza, cultura e civilização. Animais e plantas falam. Mares são seres. Peixes se comunicam. O trabalho de Marina aponta para essa desierarquização.
Marina faz ainda uma reviravolta do corpo, aos modos Queer, usando seu pincel - ora besuntado de muita tinta, ora pinceladas diáfanas – brincando com o monocromático, o agridoce, o cítrico à moda Clubber dos anos 1990, referências da vida urbana e até ao seu próprio cabelo cor-de-laranja, contrastando com sua pele branca. Seu corpo é também tela. Representado nas obras, ora como uma garota perspicaz na sua busca, ora como mulheres-bichos, sábias, corajosas e decididas.
[1] Marina Zardo Marina Zardo (Tubarão, SC) é pintora e escultora. Reside em São Paulo. Eexplora temas do feminino e a relação entre humanos e natureza. Seu trabalho propõe um deslocamento entre realidade e imaginação, criando um espaço de fantasia e reflexão, através da pintura, feltragem e bordado. Já integrou exposições em espaços como o Instituto Tomie Ohtake (São Paulo, 2023), a UERJ (Rio de Janeiro, 2023), a Casa Fluida (São Paulo, 2024-2025) o Festival Arte Serrinha (Bragança Paulista, 2024) e o Arte PE (Recife, 2024).