Psicanálise contemporânea
- jupautilla
- 20 de fev.
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Isaura Pena. Nanquim sobre papel, Geografia de um olhar
As pessoas costumam me perguntar qual linha eu sigo da psicanálise. Percebo que esta pergunta é difícil de responder porque já contém uma expectativa de resposta: freudiana, lacaniana, winnicotiana, etc. Acontece que eu cheguei na psicanálise após trinta anos de pesquisa na área de arte, sempre associada a estudos interculturais, antropologia, sociologia. Daí eu respondo para as pessoas que minha abordagem é a partir de uma psicanálise contemporânea. Não existe A psicanálise. Como não existe A arte. Mas o que seria isso?
O conceito de contemporâneo se refere menos à linha histórica da produção intelectual ou artística e mais às suas variantes de composição. Nasce sobretudo de uma abertura para a experimentação e rupturas com as tradições, não necessariamente negando, mas como eu disse antes, compondo, subvertendo, se alinhando com o tempo presente para refletir questões sociais, políticas e culturais atuais.
Na minha prática percebi que as costuras teóricas que vou fazendo entre Freud, Lacan, Deleuze e Guattari, são o modus operandi de composição com outros autores como Denise Ferreira da Silva, Édouard Glissant, Foucault, Anibal Quijano, Rita Segato, Gloria Anzaldúa, Lélia Gonzales, Franz Fanon, Nego Bispo, Antonin Artaud, entre outros. E a literatura e a dramaturgia e a arte em geral. Essas composições hoje, para mim, se encontram no fazer clínico como a pura experimentação para uma escuta ampliada, linha de fuga para não sucumbir às estruturas neuróticas que nos induzem ao fechamento, à linearidade, uma crítica à modernidade e seus modos de conceber o conhecimento acadêmico e suas hierarquias globais. Para Denise Ferreira da Silva, o Homo sapiens refere-se à espécie biológica humana — anatomicamente moderna e surgida há cerca de 300 mil anos —, e o Homo modernus é uma identidade política forjada a partir do Iluminismo e do colonialismo, também berços da psicanálise. Ou do que se tenta hoje manter da psicanálise, mas que ela própria, seu fazer clínicos, não se limita ao modelo de categorias. Se se limitar, ela simplesmente morre.


